quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Chamas do descaso reduzem a memória nacional a pó

Não tenho palavras para externar o que o incêndio do Museu Nacional significa para mim, como cidadã e professora de história. Dizer que estou arrasada, triste e revoltada é pouco. O sentimento é mais profundo. Um sentimento de descrença, de desesperança, de pessimismo quanto ao futuro. Um sentimento de vazio profundo.

O descaso da nossa medíocre classe política para com o patrimônio artístico, histórico e cultural do país é crônico e remonta a décadas e décadas de falta de visão, de falta de empenho, de inteligência e humanismo. Basta dizer que o último presidente a visitar o Museu, que é o mais antigo do país e que este ano completou 200 anos, foi Juscelino Kubitschek. Nem o doutor pela Sorbonne, Fernando Henrique Cardoso, nem o popular Luís Inácio Lula da Silva se dignaram a dar as caras para constatar que o Museu sobrevivia apenas do empenho de seus pesquisadores. Um Museu de proporções extraordinárias, com um acervo riquíssimo, peças únicas, coleções raras, enfim...E que lutava contra cupins e falta de equipamentos básicos contra incêndio, entre dezenas de outros problemas estruturais.

A miopia da nossa classe política para com a cultura foi exacerbada pelo governo golpista do Mixuruca, que reduziu drasticamente a verba, já mínima, para reles 50 mil reais. Sim, 50 mil reais (ou 12.500 euros. ou 12.500 dólares). Essa foi a quantia que o Museu Nacional recebeu no ano de 2018. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Fascismo


Mais importante que expor a cronologia da Segunda Guerra Mundial, em sala de aula, é explicar as ideias fascistas que levaram vários países a passarem por esse horror dos horrores. Se tem um assunto que provoca grande interesse entre os alunos, esse tema é a guerra, a primeira e a segunda. Sei disso  porque toda vez que faço uma enquete sobre os acontecimentos históricos que eles têm mais curiosidade, as duas guerras hediondas sempre aparecem entre os assuntos mais votados.

Pois bem. Propus à turma do 3º ano um registro sobre os princípios fundamentais do fascismo. Um resumo em tópicos. Eu o escreveria no quadro negro-verde com giz, pois na minha escola ainda se escreve com giz no quadro negro-verde, e eles, os alunos, o copiariam no caderno, pois na minha escola copiar no caderno ainda é a atividade mais praticada em sala de aula. Então, após a copiagem, eu explicaria e comentaria cada tópico com a participação deles. Aulinha básica.

E para que a aula à moda antiga se tornasse interessante, d. Margarida se valeu de um resumo adaptado do Dicionário de Política organizado por Noberto Bobbio (1997).  D. Margarida é chique. Ela gosta de levar coisas boas para seus alunos.

E não é que o tal do fascismo interessa? Os alunos ficaram totalmente concentrados e atentos. Nenhuma conversa paralela. Participação total.

E ao final, para minha felicidade e angústia ao mesmo tempo, um aluno  me disse:

_ Professora, esse fascismo que a senhora está falando, eu vejo isso numa igreja. Não quero dizer qual igreja, para não ofender quem frequenta, mas eu vejo isso tudo que a senhora falou nessa igreja. É uma lavagem cerebral. Para eles, nenhuma outra igreja presta, só a deles. Eles se acham melhores que os outros e acham que todas as outras igrejas têm que acabar. E os pastores dessa igreja são todos iguais e falam a mesma coisa e querem que todos os fiéis pensem como eles. E o bispo dessa igreja é...Essa coisa do culto ao chefe, do fascismo que a senhora falou...Nessa igreja eles fazem culto ao chefe. É uma lavagem cerebral.

Uma aluna que estava perto comentou:

_ Eles querem dominar a vida dos fiéis e quando alguém diz que vai sair da igreja, parar de frequentar, o pastor roga praga e diz que tudo na vida daquela pessoa vai dar errado. E começa a dar errado mesmo. O povo diz que é praga de pastor.

É bom esclarecer que d. Margarida defende a liberdade religiosa, como está previsto na nossa Constituição. Eu tento não ser preconceituosa. Tento respeitar todas as religiões e acredito piamente que dentro de cada instituição religiosa existem pessoas humanistas que possuem uma visão aberta do homem, do mundo e de Deus.

Quando expliquei os fundamentos do fascismo para os alunos, em nenhum momento me referi a qualquer religião. Falei sobre o fascismo do ponto de vista estritamente político. O comentário do meu aluno foi uma surpresa. Fiquei feliz porque vi que o meu aluno compreendeu os fundamentos do fascismo e que ele será capaz de ler isso no mundo. Por outro lado, fiquei angustiada, por saber que nesses nossos tempos a dominação fascista anda se espalhando e se aproveitando da vulnerabilidade das pessoas para impor o medo.




sábado, 6 de maio de 2017

Tempos modernos

 _O filme é mudo, professora?
_ É preto e branco?
_Não tinha um filme melhor pra passar pra gente, não?

Mas é só a projeção começar que pouco a pouco eles se rendem, fascinados pela genialidade e pela atualidade de Charles Chaplin.